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FIRE Jovem - Dólar e Inflação, uma breve análise

4 de março de 2022

 Olá, caros leitores. Ontem, logo antes de dormir, passou por minha cabeça um desses pensamentos que deixam um ponto de interrogação e não vão embora até que a dúvida seja finalmente respondida: "afinal, qual é a relação  entre dólar e inflação?". E, sim, eu sei, há uma óbvia correlação entre dólar e inflação, uma vez que boa parte dos bens de consumo e commodities são dolarizados. Mas a minha dúvida era um pouco mais profunda: será que essa relação direta aventada pela mídia, por políticos e pelos educadores financeiros se observa nos dados?


FIRE Jovem - dólar e inflação 2022

Como bom curioso que sou, não deixei o cansaço do horário ou a interessante prova do líder do BBB22 atrapalharem minha missão: sentei-me na cadeira e me pus a coletar dados para responder o questionamento que brotou na minha cabeça. Assim, coletei os dados nas seguintes fontes:


1. Variação Mensal do Dólar de Fevereiro/2000 até Fevereiro de 2022 - Investing.com

2. Variação Mensal do IPCA de Fevereiro/2000 até Fevereiro de 2022 - Séries Históricas do IBGE


Com os dados em mãos e usando o bom e velho Excel obtive alguns dados estatísticos para resumir as amostras (aqui inclui também o INPC a título de comparação):


Tabela 1  - Resumo Estatístico da Variação Mensal do Dólar, IPCA e INPC de fev/2000 a fev/2022



Como mostram os dados, apesar das três variáveis apresentarem média aritmética em torno de 0,50% para a variação mensal, fica claro que as variações do dólar são muito mais intensas do que os índices IPCA e INPC. Isso é fácil de notar ao comparar os desvios padrão (+- 5,09% para o dólar vs. 0,39% e 0,45% para IPCA e INPC, respectivamente) e também os valores de retorno máximo e mínimo na das amostras, enquanto o IPCA variou de -0,38% a 3,02% o dólar variou de -13,47% a 25,02%.


Mas até aqui não temos nada de novo sob o sol, é de se esperar que um índice como o IPCA que faz uma média ponderada dos preços de inúmeras categorias e em todas as regiões do Brasil tenha uma variação mensal de preços mais comportada do que a relação entre dólar e real. Outro ponto interessante desta primeira tabela é que o IPCA e o INPC quase sempre possuem variações positivas (ou seja, o real perdendo poder de compra), em apenas 9 dos 262 meses da amostra o IPCA apresentou um comportamento deflacionário, ao passo que o dólar apresentou variações negativas em quase metade dos meses (128 negativo x 135 positivo).


Ok, mas ainda não respondemos à fatídica pergunta que me tirou do conforto da cama às 22:30 de uma quinta-feira pós-carnaval, a relação entre dólar e inflação (medida pelo IPCA), se observa nos dados? Para respondê-la fiz o que qualquer iniciante em estatística faria: calculei a correlação entre os retornos mensais do dólar, do IPCA e do INPC no período de fevereiro de 2000 até fevereiro de 2022. Para a minha surpresa os valores que obtive foram os seguintes:


Tabela 2  - Correlação entre Dólar (USD), IPCA e INPC de 2000 a 2022



Comecemos pelo óbvio: a correlação entre IPCA e INPC no período foi bastante alta, chegando a 0,95 e com R² de 0,91. Isso quer dizer que o IPCA e INPC são muito correlacionados (0,95) e que as variações mensais do IPCA (ou do INPC) explicam 91% das variações mensais do INPC (ou IPCA), conforme medido pelo R². Este resultado é perfeitamente esperado, uma vez que o INPC e IPCA são muito semelhantes, a diferença é que o INPC mede a inflação da população com até 5 salários mínimos e o IPCA mede a inflação para toda população, mas a metodologia usada é a mesma. Portanto aqui não temos nenhuma surpresa.


A verdadeira surpresa vem quando comparamos a correlação do retorno mensal do dólar com relação à ao IPCA ou INPC. Como vemos na Tabela 2, a correlação não só é praticamente nula (-0,02), como também tende a ser negativa. Também é interessante notar que o R² é praticamente 0, ou seja, a variação do dólar em um dado mês é completamente descorrelacionado com a variação da inflação naquele mesmo mês. "Esse moleque fez cagada" pensarão uns, "Errou a fórmula no Excel", pensarão outros, mas não, eu chequei mais de uma vez e posso explicar o que está acontecendo aqui.


Se você é um leitor perspicaz, deve ter notado que no último parágrafo deixei uma frase destacada: "naquele mesmo mês". E este é o ponto principal aqui. Nesta primeira análise estou comparando a correlação do dólar com a inflação em um mesmo mês, é como se eu estivesse relacionando a variação do dólar hoje com a inflação que mediremos no fim do mês e isso não faz muito sentido, porque demora um tempo para a variação do dólar impactar nos preços dos itens de consumo. Ou seja, existe um atraso entre a variação do dólar e a variação da inflação. E foi justamente isso que passou pela minha cabeça antes de eu julgar que estava errando nos cálculos.


Para entender como a variação do preço do dólar afeta a inflação nos meses seguintes eu usei a seguinte metodologia: 


1. Estabeleci prazos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses e calculei a média geométrica da variação do dólar no período anterior ao mês analisado. Por exemplo, para o prazo de 3 meses em março de 2001 eu calculei o retorno médio do dólar indo de janeiro de 2001 até março de 2001, este mesmo procedimento foi feito para os demais períodos levando em conta o horizonte analisado.


2. Para o IPCA eu fiz a mesma coisa, usando os prazos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses, mas desta vez o cálculo foi feito com base nos meses posteriores, justamente porque queremos entender a variação posterior do IPCA com uma variação anterior do dólar. Por exemplo, para o prazo de 3 meses em março de 2001 foi calculada a média geométrica das variações do IPCA de março de 2001 até maio de 2001.


Realizados os cálculos, foram obtidas algumas séries de dados com a variação média anterior do dólar (em períodos de 1 a 12 meses) e a variação média posterior do IPCA (em períodos de 1 a 12 meses). Por exemplo, para o mês de junho de 2001 foram obtidos 5 medidas de variação para o dólar referentes aos prazos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses anteriores e 5 medidas referentes ao IPCA referentes aos prazos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses posteriores. Com esses novos dados, recalculei as correlações entre os retornos mensais. Na Tabela 3 a seguir a denominação USD (3) indica a análise feita com base na média de variação do dólar dos 3 meses anteriores, da mesma forma que IPCA (9) indica os cálculos referentes à variação dos 9 meses posteriores do IPCA.


Tabela 3 - Correlação entre dólar e IPCA para a média geométrica da variação em períodos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses (anteriores para o dólar e posteriores para o IPCA)



Aqui vemos que a coisa mudou de figura. Continuamos a observar o padrão de correlação baixíssima para um mesmo mês [correlação de -0,02 para IPCA(1) vs USD (1)], no entanto conforme estendemos o período de análise para 6 a 12 meses, a correlação tende a aumentar, chegando ao pico de 0,42 ao correlacionar as variações dos 9 meses anteriores do dólar [USD (9)] com as variações dos 6 meses seguintes do IPCA [IPCA (6)]. Ou seja, a hipótese de que a inflação é uma medida atrasada com relação à variação do dólar parece se confirmar nos resultados apresentados na Tabela 3, uma vez que para períodos posteriores mais longos (IPCA 9 ou IPCA 12), as correlações tendem a aumentar.


Conforme as cores na Tabela mostram, quanto mais longo o período usado para o retorno do dólar, melhores aparentam ser as correlações, chegando a um limite nos 9 meses anteriores (não parece haver aumento na correlação passando de 9 para 12 meses). Para o IPCA vemos a mesma tendência, quanto maior o período posteriors analisado, melhor a correlação, chegando a um limite em 9 meses. Ainda sobre esta análise, deixo a seguir o R² obtido para cada uma das comparações:


Tabela 4 - R² entre dólar e IPCA para a média geométrica da variação em períodos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses (anteriores para o dólar e posteriores para o IPCA)


Como podem ver, o melhor R² foi de 0,18 obtido para IPCA (6) com USD (9). Isso quer dizer que a média de retornos dos últimos 6 meses do dólar explica cerca de 18% da variação do IPCA nos 9 meses seguintes. Como o R² é o quadrado do coeficiente de correlação, a relação que vemos aqui é basicamente a mesma observada na Tabela anterior: praticamente não há poder de explicação entre dólar e IPCA para prazos curtos, a há uma tendência de melhorar a correlação e a explicação da variação dos retornos para prazos mais longos, chegando a um limite em 9 meses (usar prazos maiores que 9 meses aparentemente não melhoram o poder explicativo do R²).

Apesar de longe de ser um cientista, creio que devemos incluir em nossos estudos um pouco do rigor científico, por mais que as perguntas a serem respondidas sejam meio óbvias. Assim, imaginei que um leitor teimoso ou um aluno interessado me fizessem a seguinte pergunta: "mas quem disse que é o dólar que influência na inflação e não o contrário?". Como eu poderia obter essa resposta com os dados que tenho em mãos?

Para responder a esta última (e talvez menos importante) questão eu fiz a mesma análise descrita anteriormente, mas dessa vez usei períodos de 1 a 12 meses para calcular o retorno médio anterior do IPCA e os mesmos períodos de 1 a 12 meses para calcular o retorno médio posterior do dólar. Com isso estaremos analisando como a variação anterior do IPCA pode prever a posterior variação do dólar (basicamente mudando a relação de causa-efeito usada anteriormente). A Tabela 5 a seguir apresenta os valores de R² obtidos para esta análise:


Tabela 5 - R² entre dólar e IPCA para a média geométrica da variação em períodos de 1, 3, 6, 9 e 12 meses (anteriores para o dólar e posteriores para o IPCA).



Como mostra a Tabela, o poder de explicação das variações anteriores do IPCA para explicar os retornos posteriores do dólar é praticamente nula, sendo o maior valor de apenas 0,03 (USD 6 com IPCA 1). Com base nestes dados podemos confirmar que o poder preditivo do IPCA com relação ao dólar é praticamente nulo e que a relação correta de causa e efeito é o dólar influenciando o IPCA (conforme mostraram os dados nas Tabelas 3 e 4).

Por fim, é importante dizer que mesmo o maior valor de R² (0,18) obtido neste estudo ainda é considerado baixo para explicação da variação da inflação, o que dá a entender que existem outros fatores que ajudam a explicar as variações do IPCA, sendo o dólar apenas um deles (e fracamente correlacionado).

É isso, queridos, espero que este post seja útil, deu um trabalhinho pra escrever mas confesso que foi prazeroso. 

Abraços

FIRE Jovem





FIRE Jovem - Janeiro 2022 R$ 85.489 (-1,48%)

31 de janeiro de 2022

Olá, caros leitores e leitoras deste pequeno blog, venho aqui mais um mês apresentar-lhes como andam as minhas finanças pessoais e em que pé estamos nessa longa jornada até a independência financeira. Como um bom mês de janeiro, os gastos pesaram bastante por aqui, principalmente com o pagamento do IPVA e uma franquia do seguro do carro após um incidente com um desses postes que insistem em bater nas laterais dos carros. A taxa de poupança no mês foi baixa, de apenas 22% com relação à renda líquida, mas felizmente sobrou um restinho do décimo terceiro pago em dezembro para ajudar nos aportes.


FIRE Jovem - Fechamento Mensal - Janeiro 2022

Nos investimentos o mês não foi bom: com a forte queda do Bitcoin (-22,57%) somado à queda do dólar, a parcela de investimentos do exterior caiu com força em janeiro (-7,05%). Na realidade, a única classe de ativos que ficou no positivo este mês foram as ações brasileiras (+3,76%), ainda que significativamente abaixo dos ganhos do BOVA11 que beiraram os 7,0% no mês. Mas é isso, esse é o preço que se paga pela diversificação, não dá para ganhar todas as batalhas, o que importa é ganhar a guerra. Na imagem abaixo vocês podem conferir o histórico de rentabilidades da carteira do FIRE Jovem:


IRE Jovem - Histórico de Rentabilidades - Janeiro de 2022


Apesar do mau início em 2022, a carteira do FIRE Jovem ainda se mostra vantajosa com relação ao índice BOVA11 e o CDI desde o seu início em fevereiro de 2019. Esperamos tempos melhores pela frente. A seguir alguns números importantes:


Patrimônio Total: R$: R$ 85.489 (R$ 83,4k em dez/21)
Variação Patrimonial: + 2,57% (vs. dez/21)
Rentabilidade no mês: -1,48% (+0,98% em dez/21)
Rentabilidade Acumulada Início (fev/2019): 27,56% (calculada por regime de cotização)

Apesar da rentabilidade negativa realizei um aporte de R$ 2,5k em ETFs no exterior aproveitando a breve queda do dólar, por isso a variação patrimonial ao final do mês foi positiva. Os aportes foram feitos seguindo a minha estratégia de alocação no exterior, neste mês aportei nos seguintes ETFs: EEMV, AVDV, AVUV e IQLT. Atualmente a alocação global da carteira se encontra assim:


FIRE jovem - Alocação da Carteira - Jan/22

Felizmente seguimos acima do patrimônio planejado para o mês de janeiro, com uma folguinha de 9% com relação ao plano (R$ 78,8k planejados). Em janeiro também recebi uma querelinha em dividendos, totalizando R$ 94,40, sendo a maior parte dos dividendos proveniente dos fundos imobiliários. 

Para além destes rígidos números: a vida vai bem, gosto do meu trmapo e do pessoal de lá, inclusive recebi uma proposta para ganhar mais em outra empresa mas acabei optando por ficar. Levei algumas coisas em consideração antes dessa decisão como: projeção de carreira, ambiente de trabalho, distância do trabalho até minha casa (no novo trampo seria o dobro do tempo e provavelmente a carga de trabalho seria bem maior). Enfim, creio que fiz uma boa decisão. 

Neste mês também aproveitei para estudar sobre marketing digital, foi ótimo para entender melhor como funcionam as coisas por trás dos panos. Posso dizer que no início fiquei bem animado com as perspectivas de vender produtos como afiliado e criar 'funis de venda' para tal, mas logo a minha excitação se dissipou. No momento estou cogitando a ideia de criar um canal no YouTube para divulgar alguns materiais que estou preparando ligados ao tema da independência financeira. Um deles, inclusive, é um eBook, e vocês podem conferir o primeiro capítulo dele neste post em que falo sobre a Previdência Pública no Brasil e porque não podemos depender do INSS.


É isso, caros amigos, espero que curtam e aproveitem o post, um abraço e ótimo 2022 a todos vocês!


FIRE Jovem - Por que ser Independente Financeiramente e Não depender do INSS? [Capítulo I]

20 de janeiro de 2022

 Saudações aos velhos e aos novos leitores deste blog. Talvez alguns de vocês se lembrem que no fechamento mensal de agosto de 2021 eu comentei que havia iniciado um projeto para escrever um livro sobre independência financeira. Bom, o post de hoje é, basicamente, o primeiro capítulo do livro. 


A ideia é esclarecer ao público mis leigo porque não devemos depender do INSS e porque devemos buscar a independência financeira dependendo dos nossos próprios recursos. Para os leitores já têm consciência sobre o assunto que abordarei, peço que leiam do ponto de vista de um leigo no assunto da independência financeira e, por favor, tragam seus comentários e críticas sobre o post (estou aberto a elas). Gostaria de que me ajudassem a responder o seguinte:


1) A linguagem está clara e suficientemente fácil para um público mais leigo?

2) Vocês sentem que os argumentos são persuasivos o suficiente para deixar claro que não devemos depender do INSS?

3) Dá vontade de ler o ques 'estaria por vir' no livro?


Vamos ao texto:


1. Por que ser Financeiramente Independente?


“A história não se repete, ela gagueja” – Paris, 1968.


No Brasil, alcançar a independência financeira por meio dos seus próprios investimentos e sem depender do governo não é uma questão de busca pelo conforto, é uma questão de lógica. Existem duas alternativas: construir um patrimônio e alcançar a independência financeira por si só ou depender do incompetente governo brasileiro. Espero que até ao final deste capítulo você se convença da escolha correta. Como veremos, o sistema previdenciário brasileiro está projetado para vivermos com o mínimo necessário para nosso sustento na aposentadoria. A cada nova reforma da previdência a idade mínima para se aposentar se torna mais elevada e os benefícios de outrora se esvaem.


A regra em vigor para trabalhadores urbanos do setor privado no Brasil é a seguinte:

Mulheres

Homens

Idade mínima: 62 anos.

Tempo de contribuição mínimo: 15 anos.

 

Idade mínima: 65 anos.

Tempo de contribuição mínimo: 20 anos.

 

 

Cálculo do benefício:

Benefício = 60% da média de 100% dos salários recebidos + 2% por ano de contribuição acima do tempo mínimo (15 anos para mulheres e 20 anos para homens).

Teto do benefício (2021): R$ 6.433,57


Para que um trabalhador receba o teto do INSS é necessário que todos os requisitos a seguir sejam cumpridos:

1) A média de 100% dos seus salários (todos os salários desde o início da carreira) seja igual ou maior que o teto do benefício.

2) O trabalhador deve ter ao menos 62 anos (mulheres) ou anos (homens).

3) O trabalhador deverá ter contribuído por pelo menos 35 anos (mulheres) ou 40 anos (homens).


Ou seja, na melhor das hipóteses você receberá um salário pouco acima de 6.000 reais depois dos 62 anos de idade, tendo trabalhado (e contribuído com o INSS) por 35 anos, desde que a média de todos os seus salários, contando o primeiro emprego, tenha sido maior ou igual ao teto do benefício. Vale mencionar que o valor do teto é ajustado anualmente pelo INPC (índice irmão do IPCA). Tenha em mente que somente os custos com plano de saúde hoje são de 1.000 a 1.500 por mês para idosos (25% do teto da aposentadoria indo embora!). E tudo isso considerando o maior benefício possível do INSS, o que por si só é um sonho distante para a grande maioria dos brasileiros. Algumas perguntas que podem vir à mente:


·       Posso aposentar antes da idade mínima se meu tempo de contribuição for grande? Não! Você só poderá aposentar a partir da idade mínima, mesmo já tendo contribuído tempo suficiente para atingir o teto.


·       E se eu contribuir pelo tempo mínimo e me aposentar assim que atingir a idade mínima? Neste caso você receberá 60% da média de todos os seus salários. O benefício pago pelo INSS será 40% menor que a média dos seus salários, ou seja, se você depender apenas do INSS seu padrão de vida irá diminuir consideravelmente.


E isso tudo considerando que não teremos uma nova Reforma da Previdência nos próximos 20 ou 30 anos, o que é bastante improvável. Muito provavelmente as condições necessárias para aposentar quando os jovens de hoje estiverem próximos dos 60 anos serão muito mais rigorosas. Sendo bem simplista, a previdência brasileira funciona em um regime em que os trabalhadores de hoje pagam os benefícios de quem está aposentado, assim, a fatia do seu salário que é destinada ao INSS é usada para o pagamento dos salários e benefícios de quem recebe o benefício do INSS atualmente. Este modelo de previdência faz sentido em países (ou épocas) em que há muitas pessoas trabalhando – e contribuindo com a previdência - e um número reduzido aposentados, pois dessa forma há bastante gente contribuindo para sustentar, merecidamente, os aposentados que já fizeram sua parte no passado. Esta talvez fosse a realidade brasileira na segunda metade do século XX, mas hoje a história é outra.


De acordo com o IBGE, a esperança de vida do brasileiro era de 63,1 anos¹ em 1970, já em 2014 esta marca estava em 75,1 anos². Paralelamente, a taxa de natalidade reduziu de 4,97 nascimentos por mulher em 1970 para 1,73 nascimentos por mulher em 2018³. A expectativa de vida aumentou 12 anos ao mesmo tempo em que as famílias passaram a ter, em média, 3 filhos a menos. A consequência óbvia é que a quantidade de aposentados deverá aumentar substancialmente ao passo que a ‘reposição’ de trabalhadores novos é reduzida, tornando muito difícil sustentar o modelo previdenciário. É muito provável, quase inevitável, que novas reformas da previdência ocorram e que a idade mínima da aposentadoria seja elevada a 67 ou 70 anos nas próximas décadas, sem contar as prováveis mudanças no cálculo do benefício e retirada de direitos. Escolher se aposentar pelo INSS sem um plano B é como apostar todas as suas fichas em uma loteria com prêmio baixo, que demora muito tempo para ser recebido e com tendência a diminuir conforme o tempo passa. Todo adulto com menos de 50 anos deve estar preocupado com a aposentadoria, se você for jovem preocupe-se desde o seu primeiro dia de trabalho, do contrário, deixará seu futuro nas mãos do governo ou terá de ser sustentado pelos filhos, amigos e familiares. Pense bem antes negar a sobremesa ao Enzo ou à Valentina.


A Tabela abaixo mostra o benefício mensal do INSS para 10 pessoas hipotéticas calculado bom base na regra previdenciária vigente em 2021 e de acordo com o salário médio ao longo da carreira, idade e tempo de contribuição.


Tabela 1 – Benefício do INSS por Salário Médio, Idade e Tempo

Pessoa

Salário Médio

Idade

Tempo de Contribuição

Benefício Mensal

Ana

R$  7.000

62

15

R$ 3.860

Maria

R$  9.000

62

20

R$ 4.503

Cecília

R$11.000

62

25

R$ 5.147

Amélia

R$ 15.000

62

35

R$ 6.433

Paula

R$ 20.000

60

40

0

Rodrigo

R$   7.000

65

15

0

Luiz

R$   9.000

65

20

R$ 3.860

Pedro

R$ 11.000

65

25

R$ 4.503

Antonio

R$ 15.000

65

35

R$ 5.790

José

R$ 20.000

60

40

0

 

Vejamos alguns destes casos: Paula e José têm mais de 60 anos, salário médio de R$ 20 mil mensais e contribuíram por 40 anos seguidos, por tudo isso estas pessoas conquistaram o benefício mensal de 0 reais pelo resto da vida!


É chocante, mas esta é a situação de todos aqueles que não atingiram a idade mínima (na prática em 2021 essas pessoas têm direito à regra de transição, mas essa não será a realidade para os mais novos). O tempo de contribuição não importa, se você trabalhar desde os 16 anos e pagar o INSS todos os meses, não poderá se aposentar enquanto não atingir a idade mínima.


Agora vejamos os melhores casos da Tabela: Amélia e Antonio têm idade mínima para aposentar, contribuíram por 35 anos seguidos e terão direito a um salário de aproximadamente R$ 6.000 por mês. Não é um benefício baixo, especialmente comparado à renda média do brasileiro. No entanto, perceba que a média salarial deles antes da aposentadoria era de R$ 15.000 e assim, no dia em que aposentarem, terão um corte de R$ 9.000 com relação à média dos salários recebidos caso não gerem renda de outras formas.


Usar a média de 100% dos salários para calcular o benefício é particularmente desanimador, a consequência prática é a certeza que seu padrão de vida irá diminuir na aposentadoria caso dependa apenas do INSS. Isso porque o benefício será calculado a partir da média de todos os seus salários desde o seu primeiro emprego, ou seja, se você começou a trabalhar de forma registrada com 18 anos e recebia o salário-mínimo, estes salários irão entrar na conta para o cálculo do benefício final, jogando a média para baixo. Antes da Reforma de Previdência de 2019 o benefício era calculado eliminando os salários mais baixos, o que aumentava substancialmente o valor recebido.


Para que tenhamos uma ideia do impacto no padrão de vida das pessoas que se aposentam dependendo unicamente do INSS, veja a gráfico a seguir. Nele você encontrará a evolução do padrão de vida de 10 pessoas hipotéticas que contribuíram dos 25 aos 65 anos, tendo direito ao benefício igual à média de 100% dos salários ao longo da vida, limitado ao teto do INSS. Nesta simulação vamos assumir que os salários aumentaram 2% acima da inflação anualmente e a diferença do salário inicial foi de R$ 250 de pessoa para pessoa, sendo R$ 1.000 o menor salário inicial (ou seja, o menor salário inicial era de R$ 1.000, o segundo menor de R$ 1.250 e assim por diante).


FIRE Jovem - benefício do INSS após a aposentadoria com base no histórico de salários


Perceba que independentemente da faixa salarial, todas pessoas da simulação teriam um salário menor na aposentadoria comparado ao último salário recebido enquanto trabalhador ativo. Note também que quanto maior o salário recebido próximo da aposentadoria, maior o tombo da renda ao se aposentar. Não há alternativa, se quiser manter o padrão de vida após a aposentadoria será preciso complementar a renda do INSS de outras formas, seja com investimentos, aluguéis, previdência privada ou emprego em idade avançada.


Pense no seguinte: se você não deseja continuar trabalhando até os 62-65 anos (ou 67-70 anos se você for jovem) você deve assumir que não receberá nada do INSS. Sim, é isso mesmo! Se não quer trabalhar até morrer o problema é seu, se vira, você só terá direito a aposentadoria (em condições normais de saúde e não sendo parte dos regimes diferenciados de professores, trabalhadores rurais, policiais ou funcionários públicos) a partir da idade mínima de 62 anos para mulheres ou 65 anos para homens, antes disso você não tem direito a absolutamente nada! Ou seja, se você, por algum motivo, deseja se aposentar aos 45, 50, 55 ou mesmo 60 anos, você não poderá contar com nenhuma renda do INSS até ter a idade mínima. Se a aposentadoria antecipada for um dos seus objetivos, parta do princípio de que você não receberá absolutamente nada do INSS e planeje-se de acordo*. Pode parecer forçado da minha parte, mas esta é a realidade.


*Eu não estou sugerindo que abandonar completamente o INSS seja uma boa ideia, se você estiver próximo da idade mínima de aposentadoria (digamos de 1 a 15 anos) e já tiver contribuído ao longo de toda vida (de forma obrigatória) será financeiramente vantajoso continuar contribuindo até a idade mínima para não desperdiçar os anos de contribuição anteriores. No entanto, existem pessoas que planejam se aposentar tão cedo quanto 40 anos, neste caso o INSS não será de muita serventia. De qualquer forma, você não terá direito a um tostão pelo INSS enquanto não completar a idade mínima, caso ainda queira receber o benefício será preciso continuar contribuindo pelos anos que faltarem até a idade mínima, obtendo o dinheiro de outra fonte de renda que não o trabalho formal.


1. Dados do IBGE  - Consulta disponível em: https://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx?vcodigo=POP209 (acesso em junho de 2021).

2. Dados do IBGE - Consulta disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1174 (acesso em junho de 2021).

3. Dados do Banco Mundial – Consulta disponível em: https://datatopics.worldbank.org/world-development-indicators/ (acesso em junho de 2021).


FIRE Jovem - Afinal, Previdência Privada PGBL vale a pena? - Parte I: Panorama

14 de janeiro de 2022

 Olá, caro leitor.


Este será um post de libertação e recheado de informações. Se você nunca passou por aqui sugiro que dê uma lida na minha Apresentação, no meu plano para a Independência financeira e nos meus Princípios de Investimento.


Bom, depois de algumas discussões com homens teimosos na casa dos 50 anos (leia-se: meu pai e pai da namorada) decidi colocar tudo na ponta do lápis (na verdade foi no Excel) para responder à derradeira pergunta: Afinal, previdência privada vale a pena?





Antes de entrarmos nos cálculos pra valer, gostaria de ressaltar que eu procurei nos cafundós do Google, YouTube e blogosfera em busca de uma planilha para conseguir simular de forma correta (e não enviesada por um banco/seguradora) em quais casos a previdência privada, mais especificamente o PGBL, vale a pena. Como o perspicaz leitor deve ter percebido, eu não encontrei a tal planilha, portanto deixo registrado que em pleno 2021 ainda faltava essa peça do quebra-cabeça na internet brasileira (também existe a chance de eu ser um incapaz fazendo buscas online, mas deixemos essa de lado). Para não ser completamente injusto, encontrei dois posts de 2009 no blog Viver de Renda, no entanto eram posts mais amplos, sem detalhar os cálculos exatos por trás das afirmações (ainda que bom posts). Aos demais blogueiros que fizeram posts semelhantes (ou mesmo criaram a tal planilha) deixo aqui minhas sinceras desculpas.


1. INTRODUÇÃO


Enfim, a previdência privada é mais um desses assuntos delicados que conta com dois lados beligerantes: de uma lado há os que juram de pé junto que este é o melhor investimento possível e que você deveria correr o mais rápido possível para fazer uma. Do outro, há os que dizem que previdência privada é mais uma forma do banco comer seu dinheiro com altas taxas de administração e que é uma classe de investimentos que sequer deve ser considerada. Como é de praxe em (quase) toda polêmica, a resposta correta mora longe dos extremos e há uma série de fatores a serem analisados antes de saber se a previdência é um investimento que vale a pena.


Para que este post não fique longo demais vou assumir que todos já tem uma boa noção da diferença entre PGBL e VGBL e qual a diferença entre os modelos de tributação (regressivo x progressivo).  O quadro abaixo resume brevemente as diferenças nos tipos de plano:

FIRE Jovem  Fonte: https://tributario.com.br/karoline-anacleto-pozzer/__trashed-7/


Basicamente, há duas diferenças mais importantes: 

1) Tributação, pois no PGBL a tributação incide sobre o total investido e no VGBL ela incide apenas sobre o lucro como nos demais investimentos.

2) Benefício fiscal, pois o PGBL permite ao contribuinte abater o valor investido no plano de previdência de sua renda bruta, reduzindo o valor pago no imposto de renda (no VGBL não temos essa alternativa).


Vale lembrar que a alíquota do imposto pago sobre o PGBL ou VGBL será a mesma para um mesmo regime de tributação (p. ex: se você escolher a tributação regressiva, você irá pagar uma alíquota de 10% de imposto após 10 anos independente do plano escolhido, a diferença é que no PGBL o imposto incide sobre o valor total e no VGBL apenas sobre os lucros).


VGBL, um caso perdido  - O único benefício do plano VGBL sobre os investimentos comuns em ações/FII/renda fixa está na tributação sobre o lucro, pois se você optar pela tabela regressiva irá pagar apenas 10% sobre o lucro após 10 anos (ante 15% para a maioria dos investimentos). No entanto, se uma boa parte do seu portfólio próprio estiver investido em ações, você pode obter o benefício de vender até R$ 20.000 por mês (mesmo com lucro) e não pagar nada de imposto, o que não é possível em um plano VGBL. Além disso, se levarmos em conta que os planos de previdência privada costumam ter altas taxas de administração e carrego, este pequeno benefício fiscal normalmente se torna nulo quando colocamos tudo na balança. Eu sei que não foi a melhor explicação do mundo para excluirmos o VGBL da brincadeira, mas nesta série de posts vamos deixá-lo de lado e focarmos em quem realmente importa: o PGBL. Antes disso, façamos um breve resumo de previdência privada no Brasil.


2. UM PANORAMA DA PREVIDÊNCIA PRIVADA NO BRASIL


Lembra que falei que tem uma galera que diz que a previdência privada serve só pro bancos arrancarem sua grana? Bom, eles tem um ponto. Os dados que apresentarei a seguir foram retirados do Relatório Gerencial de Previdência Complementar, publicado em Agosto de 2021. 

Então vamos lá, em 2020 no Brasil havia cerca de 16,7 milhões de contribuintes em planos de previdência. Em agosto de 2021 o patrimônio total gerido pelos planos de previdência complementar atingiu R$ 2,24 Trilhoes, o que representa 28% do PIB nacional.  Estes contribuintes estão divididos em 3 grandes tipos de planos: 

1) Entidades Abertas de Previdência Complementar (EAPC): são os planos aos quais qualquer pessoa pode aderir, normalmente distribuídos por bancos, seguradoras e instituições financeiras abertas. Este tipo abrange aproximadamente 59% do total de contribuintes.

2) Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC): são os planos fechados, normalmente oferecidos por empresas privadas aos seus funcionários, são os chamados Fundo de Pensão. Eles englobam cerca de 22% do total de contribuintes com planos complementares.

3) Contratos Coletivos (EAPC): são contratos coletivos geridos por instituições abertas e representam cerca de 19% do total de contribuintes.

FIRE Jovem - Evolução do nº de contribuintes por tipo de plano complementar


Se eu tivesse que adivinhar se a maioria do patrimônio destes planos está investido em VGBL ou PGBL, eu provavelmente diria que são os planos PGBL, uma vez que são os mais indicados para contribuintes com alta renda e dão o benefício fiscal de 12% do IR. No entanto o que se observa é justamente o contrário: 78% do patrimônio das EAPC está investido em planos do tipo VGBL e somente 16% está nos PGBL (o resto está nos chamados Planos Tradicionais).

Agora vamos para os dados que são realmente importantes no que tange à decisão do investimento: taxas e rentabilidades históricas. Os principais argumentos que pesam contra os planos de previdência privada estão intimamente relacionados a essas métricas, eles dizem que a maioria (senão todos) planos tem altas taxas e rentabilidades medíocres. Mas será que isso se observa na prática? Vejamos:

2.1 Taxa de Administração

A taxa de administração é completamente diferente quando falamos de planos fechados e planos abertos. Via de regra, as taxas dos planos fechados são muito menores (Fundos de Pensão), o problema é que são poucos os que têm acesso a este tipo de plano. A ampla maioria dos brasileiros só pode investir nos planos abertos, e é aí que o bicho pega.  A taxa média de administração dos planos de previdência privada abertos é de 1,3% ao ano, em contrapartida, a taxa média dos planos fechados é de apenas 0,27% ao ano, uma é quase cinco vezes maior que a outra. Como veremos a seguir, isso tem um impacto direto sobre a rentabilidade dos planos de previdência.

No gráfico a seguir você pode ver a evolução das taxas de administração dos planos de previdência abertos. Note que para a maioria das curvas praticamente não houve redução na taxa de administração de 2012 para cá, ou seja, ainda temos muito o que evoluir para ter planos que realmente se preocupam com o futuro dos seus contribuintes. 



2.2 Rentabilidade

Um inocente no mercado financeiro poderia pensar: "se os planos aberto cobram taxas de administração maiores deve ser porque eles têm melhores gestores e entregam melhores resultados, certo?". Bem, não é bem assim. Na realidade (e como já foi demonstrado em inúmeros estudos), altas taxas de administração tendem a gerar retorno menores ao investidor. A razão é meio óbvia: uma maior taxa paga ao banco significa um investimento menor e uma rentabilidade menor. Ou seja, na média, a habilidade do gestor não faz tanta diferença assim, o mais importante é buscar pelas menores taxas possíveis. Especialmente levando em conta que 74% do patrimônio dos planos abertos e 55% do patrimônio dos planos fechados está investido em títulos do Tesouro Público, coisa que o investidor comum pode fazer e obter uma rentabilidade semelhante.

Agora vamos aos números:

FIRE jovem - rentabilidade acumulada planos de previdência privada (2012-2021)

É, meus amigos, fez-se o óbvio: os planos abertos (que possuem maiores taxas) têm as menores rentabilidades médias (inclusive abaixo do CDI e igual ao Bovespa em uma década perdida e pós-covid). A diferença entre os planos fechados e abertos e de quase 2,6% ao ano! Ou seja, além de cobrarem taxas maiores, os planos abertos têm gestores menos competentes aparentemente. É perturbador o fato da média dos planos abertos não bater sequer o CDI no período. 

Por outro lado, os planos fechados se mostraram uma alternativa de investimento bastante rentável, alcançando uma média de 10,5% ao ano. Para efeito de comparação, essa seria uma rentabilidade próxima do índice IPCA + 5% ao ano no período analisado, sem dúvidas é uma classe interessante, no entanto, como mencionei, só é possível ter acesso a estes planos se você trabalhar em uma empresa com fundo de pensão.

No gráfico abaixo vemos a rentabilidade acumulada dos planos abertos dividida por classe de investimento do plano:

FIRE Jovem - Rentabilidade Acumulada, planos de previdência abertos


Notem que nem mesmo a melhor categoria dos planos abertos (Ações Ativo) conseguiu superar a média dos planos fechados. Outro ponto de destaque é que o plano de ações ativo superou o índice bovespa no período (109% BOVA  x 138% gestão ativa), mas é necessário entender a relação risco-retorno destes planos, além de considerar o fato de não ter direito à venda isenta de impostos até R$ 20.000/mês.


2.3 Alocação


Como mencionei acima, a maior parte dos investimentos dos planos de previdência complementar está alocada em Títulos do Tesouro Direto, assim, é provável que um investidor comum consiga obter rentabilidades semelhantes aos planos de previdência desde que também faça sua alocação nos Títulos. É claro que há outras variáveis, como o market timing e a proporção entre pré e pós-fixado na carteira. No entanto, se levarmos em conta que o mercado de títulos é aproximadamente eficiente, é bastante provável que o investidor comum que compra títulos mensalmente consiga se aproximar da rentabilidade média do gestor de um plano de previdência que investe somente em títulos.

A tabela a seguir traz o patrimônio investido (em trihões) por classe de ativo para todos os planos de previdência privada de 2012 a 2021, bem como o percentual do patrimônio alocado por classe de ativo para todos os planos, planos abertos e planos fechados. 

FIRE jovem - Alocação total dos planos de previdência privada


Portanto, cerca de 80% do capital de todos os planos de previdência está alocado unicamente em Renda Fixa (Tesouro + outros), para os planos abertos a alocação em renda fixa chega a incríveis 92,5%, some a isso as altas taxas de administração e carregamento e está explicado porque muita gente tem aversão á pevidência privada. Nota-se também a maior alocação em renda variável nos planos fechados, bem como uma maior diversificação em outras classes de ativos (outros e imóveis), essa maior diversificação com relação aos planos abertos pode ser o fator que falta para explicarmos as diferenças de rentabilidade entre os planos.

O gráfico a seguir traz a evolução do patrimônio dos planos de previdência complementar (abertos e fechados) divido por classe de ativo de 2012 a 2021:

FIRE Jovem - evolução da alocação de patrimônio dos planos de previdência fechados e abertos (2012-2021)


3. CONCLUSÃO

Bom, para resumir bem o conteúdo deste post: 

  1. Normalmente os planos VGBL não valem a pena pois possuem uma pequena vantagem fiscal no modelo de tributação regressiva mas que não compensa as altas taxas de administração (e consequente baixa rentabilidade).
  2. A previdência complementar é um investimento muito usado pelos brasileiros, com mais de 2 trilhões de reais investidos e 16,7 milhões de contribuintes.
  3. Existem dois tipos de planos: abertos e fechados. No geral os fechados tem menor taxa de administração, maior diversificação e melhor rentabilidade.
  4. A rentabilidade dos planos abertos não bateu o CDI de 2012 a agosto de 2021, as taxa de administração são altas, chegando a 1,3% em média.
  5. A maior parte do capital dos planos de previdência está na modalidade VGBL (78%), além disso, cerca de 80% do patrimônio está investido em renda fixa, sendo 64% em títulos do tesouro.

Sei que ainda não respondemos à pergunta que deu origem ao artigo, no entanto o post está relativamente longo. Vou dividí-lo em 2 partes para facilitar o entendimento, na próxima parte irei focar em uma análise com estudos de caso e trarei o racional financeiro para responder à pergunta: afinal, previdência privada (especialmente o PGBL) vale a pena?


Obrigado!




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